‘conte-me uma história’
pediu a criança antes de dormir.
mas o pai já estava cansado
de ter que repetir as mesmas palavras.
ainda que o amor fosse grande
e que
assim que começasse a contar
soubesse que iria se empolgar
como dantes, como de tantas outras vezes,
não queria - só por hoje
repetir os dias
seja dos meses ou semanas.
o bicho paterno tinha medo
do desemprego, da fome,
entrava em desespero pensando
‘amanhã, o que se come?’.
mas a menina pediu
‘queria só ouvir o final da de ontem’.
e o pai antes de contar
pensou se teria alguém
a quem lhe pediria
pra resolver o final das contas
os mais e menos, noves fora e tal.
noutros anos
a mulher (um dia menina)
que nunca sabia do final das coisas
chegou pro pai e disse
‘preciso de uma resolução’
o velho
ainda cansado, agora de outros fardos,
não se indispôs
‘deite e vou lhe dizer’.
no curto espaço de tempo
entre o ar e o travesseiro
a mulher dormiu
como se um arqueiro
a tivesse atingido com seta de sono.
e no levante certo das horas
acordou de pronto como que atrasada,
perguntado com assusto
‘dormi tanto, e ontem, o que o senhor me contou?’
e o velho lhe disse
da insônia que tinha
embora só olhasse pro relógio
de vez em quando
apenas repetia em voz alta a hora
fosse noite, madrugada ou meio-dia.
então viu a filha se resolver
ouvindo-o num compasso
tão inconstante quanto os problemas que tinha.
o homem que hoje passeava agarrado nas estantes
tinha aprendido que resolução maior não havia
que a história do tempo, contada nos dias.
Modus vivendi é uma frase em latim que significa um acordo entre partes cujas opiniões diferem, de tal maneira que elas concordam em discordar.
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