quinta-feira, 19 de abril de 2012

abre e fecha


um homem diferente
naquela casa 
cuja janela dá pra lugar nenhum
por ter sido tapada do lado de fora.
o homem mais antigo do mundo
ainda sim
costumava abrir a janela todos os dias
e olhava pros tijolos que tapavam a visão.
velhos, não tanto quanto o próprio velho,
os tijolos nus
sem pintura
não havia nenhum cimento
só uns buracos
entre um e outro,
mas o velho abria as duas portinhas.
uma vez 
sobre essa janela
perguntei se fazia o hábito só pra mantê-lo.
‘não’, só disse.
e recostou-se de novo na cadeira
olhando pra bandas escancaradas
mostrando os quadrados vermelho-barro.
desisti de entender.
antes de morrer esse homem mais velho do mundo
(naquele tempo ainda era o mais velho),
cheguei pra perguntar
por que pedia que seu leito de morte
tivesse que ficar 
entre a janela e a cadeira onde antes se sentava.
‘quando era solteiro,
novo poeta,
prometi abrir a janela todos os dias
até que avistasse aquela
que viria a ser minha senhora 
por detrás da moldura’.
pensei, mas pensei alto
‘ela nunca veio’
‘não, meu filho, ela veio’
‘então, por que o senhor fechou a vista da janela?’
‘antes de morrer, ela me pediu pra fazer o tapume.
disse que se não ia vê-la,
tivesse memória bela,
os tijolos me diriam 
que ela não está mais lá fora, 
que da minha vista ela some,
mas sua lembrança é janela
daquilo que num se pode ver
mas existe, mesmo sem ser’. 
o homem mais velho morreu,
pobre como todo poeta,
enterrado na mesma cova que a mulher,
descobriram
que por cima do caixão primeiro
o velho obediente tinha enterrado 
uma porta e um plastificado bilhete
amarrado à maçaneta.
‘podem tirar os tijolos da janela, 
assim que abrirem essa porta 
meu corpo vai dar no dela 
e o que está fechado volta a ser aberto
pra outro que quiser
por uma imagem velar.
ainda que antes do frio da morte
tenha esperado muito, fui o mais velho em vida,
mas dela hoje fico mais perto
caminho longo foi essa minha partida
não nego minha sorte.
não tem mais tijolo no meio da vista
limpo minhas cortinas
fechando os olhos
afivelei minha sela 
montei no relógio pra te ver’.
só assim eu entendi,
porque o velho dizia antes de morrer
‘abre-te-sésamo, querida,
já roubaram todo o tempo pelas frestas’.


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