domingo, 7 de julho de 2013

ferreira f errado

um ferreiro procura ferro
e eu, 
ferreira,
procuro palavra que me forje.

se me ferro 
em quase tudo que faço
nomeio-me procurador do erro troncho. 
ora 
procuro me encontrar
ou então
não me fuder de novo. 

e dia após dia 
ferro após ferro
não achei material suficiente
pra fugir da palavra que incomoda
e forja a farsa
que é
fingir não me ferrar. 

e a palavra é felicidade. 

quarta-feira, 3 de julho de 2013

memória cinematográfica

quadro a quadro
na lembrança que quer ser esquecida
a mente está sempre uma cabeça à frente
do cabeçote da fita.

Foto: "Duo", Luciana Urtiga, em http://www.flickr.com/photos/lucianaurtiga/.

sábado, 8 de junho de 2013

os gatos sempre avançam

às vezes eu olho pro mundo
e sinto ele respirar saudade.
os viciados em internet
ruminando as mesmas notícias de 1 ano atrás
as revistas que se repetem
as pessoas só parecem com seus pais
“ah, seu eu pudesse voltar”
quem nunca disse?
as pazes com os erros
os mesmos acertos. 
bem melhor, não?
não. 
nada de réquiem.
que missa que nada.
merda,
pra que serve um sonho morto?
meu lema: ainda que errado, vivo. 
assim como tantos outros que buscam paz
eu sou 
um dos muitos que se enrolam nos cadarços 
dos pés à cabeça
e assim
com a visão posta em ângulo
nem baixa
nem reta
enxergo tudo torto
como se tivesse acabado de conhecer a vida
e tivesse achando 
intrigante
como um gato
que se olha no espelho
mas não tem medo 
de avançar
e meter a pata na própria cara
tentando domesticar sua imagem.
uma que não cansa de bolar
e cair nos tapetes da vida.
não sabe qual reflexo é velho,
alma selvagem 
de mente esquecida

sem tempo a perder de vista.

se sorrir, morre

entorta, enverga
o destino de tudo vivo é assim:
um arco.
você acaba apontando de volta de onde veio.
cada desvio que dou da linha reta
sabe
cada desvio desses 
é um sorriso que faço no caminho
inspirando plágios.
é a morte dizendo
já levei tanta gente 
que faz isso. 
por isso a vida 
é tão curta
quando o espetáculo parte pra comédia
a cortina encerra
tudo apaga. 

quinta-feira, 23 de maio de 2013

seja seu herói esquecido

esconda seus heróis o mais fundo que puder na alma.
esqueça quem eles foram
quais os grandes feitos
aquilo que inspirou você a ficar vidrado
numa pessoa e pensamento só.
deixe que aquele herói
seja apenas
no fundo da alma
como um rastro de DNA
tão imperceptível
quanto a cor negra dos seus cabelos
que eu amo. 

você deve 
perder noção que um dia
fomos inspirados por alguém
e até deve
esquecer com força
do moço grego ou moça cristã
não importa quem:
esqueça que existe.

nós pensaremos 
imagine
imagine
imagine 
que a palavra que estamos usando
é nossa, e não dela,
da ideia do outro herói.
e aí que nós mesmos seremos os primeiros homens
a chegar nas filas da vida.

nunca mais 
terei que odiar partilhar uma imagem sagrada
com ninguém.
arr, 
não tem coisa pior do que seu vizinho
gostar de Bob Dylan 
tanto quanto você.






* também não serve caso você queira esquecer uma mulher. Isso é muito mais difícil.

** se você for José Inácio Vieira de Melo, admito que odiei a poesia “Jokerman”. Ainda não tinha ouvido em língua portuguesa uma poesia tão bela para Dylan.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

morte anunciada de minha tia


‘você vai morrer’
‘eu sei’
‘logo’
‘não sei’
eu não quero operar minha cabeça
quero a serpente tanto quanto a mordida
aprendi com um príncipe
quero o arranhar de lixa sobre as unhas
ficar bonita pro carnaval
um caixão enfeitado de fita
vou dar um tiro no ouvido
com arma feita de cano, bexiga e pedra
aparecer pela última vez
ali
sentada por cima do portão de metro e meio de altura
quero um carro de som vendendo laranja
e ao menos outra vez
o motorista vai me dar meia dúzia de graça
quero que se fôda quem quer que diga pra eu me foder
quero batom vermelho pra marcar o cigarro
e sorriso pra destruir quimioterapia
meus vestidos estampados de cortina
vou rodar
numa roda gigante
e antes dela crescer
parar
no outro lado de são paulo
onde fiz minha memória mais feliz
vou dar um uivo de rasgar ouvido e costurar garganta
por mais que a gente cresça e dance
é da criança que lembramos
de quando cuidamos e descuidamos
andando descalço
se eletrocutando no pisca de árvore de natal
rasgando o dedo na faca de plástico
pondo garfo em buraco de tomada.
de todas as formas que se tem de morrer
não ter morrido até agora é a mais arriscada.
nos arriscamos a gostar daqui
e de fazer os outros gostarem.
por isso
quero tudo de volta
tudo que não usei
um desfile das palavras certas que os outros não ouviram
o tijolo roubado
o dinheiro do plano collor
meus 40 anos
meus 50
aquilo que não ousei
cadê meu sonho?
aquele só meu
minha bicicleta vai só
vou desamarrar as bicicletas pequenas de trás
deixa que eu subo essa ladeira só
precisa vir agora não.
cadê minhas cores?
meu estrondo
dou-lhe uma lição quando você menos pensar
repreendo e tal
dedo torto e mal
tá bom
deixa assim mesmo
datilografa aí
ah
a máquina não tá mais aqui
levaram.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

o primeiro roque

“corre que o gás tá acabando. chama roque.”
a gente ia correndo pelas calçadas
passava no mercadinho e procurava
se não estivesse lá
em bigode, no bar, tava
tomando um caninha e achando graça
rindo da desgraça, desviando ameaça.
“roque, vó tá chamando pra trocar o gás”
ele do outro lado dava logo um “eita”
com voz grave
elvis presley.
“vamo logo que ela num espera”
dava uma sacudida no esqueleto
acho que já era costume da hora de engolir cachaça
dava um tempo, lá vinha roque
cantando, entrando dentro de casa.
“mamãe, não quero ser prefeito,
pode ser que eu seja eleito,
e alguém pode querer me assassinar...
ei... acabou o gás foi?”
minha tia
que não aguentava nem cheiro de pinho sol
já dizia
“homem, deixe de coisa e troque ali logo”
e ele voltava a música.
eu gostava de ir chamar roque.
pra mim
era uma jukebox ambulante
bem magrinho, se remexendo
batucando caixa de fósforo
subindo o cós das calças ou do short.
não me importo se ele morreu do cancro
se o foi o cigarro ou a bebida
quem não canta tem medo da morte
roque
só não ensinava mais
porque não tinha sala com aluno matriculado
como tinha regina
minha tia, irmã dele, tia da minha irmã
outra história, outra sina.
bem,
eu tive que crescer
depois de passar boa parte da vida pensando
bêbado e desperdício eram a mesma coisa
aí veio o tempo
e uns copos de caninha depois
cá estou
lembrando de um dos primeiros intelectos musicais da minha infância.
um bêbado.
dos bons.
um roqueiro, de vera.
roque me ensinou
os fundamentos do rock.
ensinou a não se render nunca a músicas da moda.
forró do ruim, axé, pagode e besterol
isso tudo passa.
menos o copo de cachaça
que não tem medida.
e mostrou o principal
(derindau-dau-dau)
quando o gás tiver acabando
bota um rock’n’roll pra rolar
encontra um dinheiro emprestado
pede outro copo
toma coragem
se remexe
troca as energias
e a vida continua
faz tua comida.
foi assim que eu vi roque pela primeira vez na minha cabeça
do mesmo jeito que eu vi
o rock
uma passagem forte
de som e sentidos.
uma lembrança cambaleante.
como é que você ainda consegue ter
brilho próprio depois de uma ressaca?
o camarada
tem que ser
um roque star.