quarta-feira, 15 de maio de 2013

morte anunciada de minha tia


‘você vai morrer’
‘eu sei’
‘logo’
‘não sei’
eu não quero operar minha cabeça
quero a serpente tanto quanto a mordida
aprendi com um príncipe
quero o arranhar de lixa sobre as unhas
ficar bonita pro carnaval
um caixão enfeitado de fita
vou dar um tiro no ouvido
com arma feita de cano, bexiga e pedra
aparecer pela última vez
ali
sentada por cima do portão de metro e meio de altura
quero um carro de som vendendo laranja
e ao menos outra vez
o motorista vai me dar meia dúzia de graça
quero que se fôda quem quer que diga pra eu me foder
quero batom vermelho pra marcar o cigarro
e sorriso pra destruir quimioterapia
meus vestidos estampados de cortina
vou rodar
numa roda gigante
e antes dela crescer
parar
no outro lado de são paulo
onde fiz minha memória mais feliz
vou dar um uivo de rasgar ouvido e costurar garganta
por mais que a gente cresça e dance
é da criança que lembramos
de quando cuidamos e descuidamos
andando descalço
se eletrocutando no pisca de árvore de natal
rasgando o dedo na faca de plástico
pondo garfo em buraco de tomada.
de todas as formas que se tem de morrer
não ter morrido até agora é a mais arriscada.
nos arriscamos a gostar daqui
e de fazer os outros gostarem.
por isso
quero tudo de volta
tudo que não usei
um desfile das palavras certas que os outros não ouviram
o tijolo roubado
o dinheiro do plano collor
meus 40 anos
meus 50
aquilo que não ousei
cadê meu sonho?
aquele só meu
minha bicicleta vai só
vou desamarrar as bicicletas pequenas de trás
deixa que eu subo essa ladeira só
precisa vir agora não.
cadê minhas cores?
meu estrondo
dou-lhe uma lição quando você menos pensar
repreendo e tal
dedo torto e mal
tá bom
deixa assim mesmo
datilografa aí
ah
a máquina não tá mais aqui
levaram.

2 comentários:

  1. Seu poema , nos apresenta sua tia, seus momentos e a imensurável dor de perde-la.... a sua personalidade marcante ficou encrustada em suas memórias.. guarde-as com carinho , é o bom da vida!

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