segunda-feira, 29 de abril de 2013

o primeiro roque

“corre que o gás tá acabando. chama roque.”
a gente ia correndo pelas calçadas
passava no mercadinho e procurava
se não estivesse lá
em bigode, no bar, tava
tomando um caninha e achando graça
rindo da desgraça, desviando ameaça.
“roque, vó tá chamando pra trocar o gás”
ele do outro lado dava logo um “eita”
com voz grave
elvis presley.
“vamo logo que ela num espera”
dava uma sacudida no esqueleto
acho que já era costume da hora de engolir cachaça
dava um tempo, lá vinha roque
cantando, entrando dentro de casa.
“mamãe, não quero ser prefeito,
pode ser que eu seja eleito,
e alguém pode querer me assassinar...
ei... acabou o gás foi?”
minha tia
que não aguentava nem cheiro de pinho sol
já dizia
“homem, deixe de coisa e troque ali logo”
e ele voltava a música.
eu gostava de ir chamar roque.
pra mim
era uma jukebox ambulante
bem magrinho, se remexendo
batucando caixa de fósforo
subindo o cós das calças ou do short.
não me importo se ele morreu do cancro
se o foi o cigarro ou a bebida
quem não canta tem medo da morte
roque
só não ensinava mais
porque não tinha sala com aluno matriculado
como tinha regina
minha tia, irmã dele, tia da minha irmã
outra história, outra sina.
bem,
eu tive que crescer
depois de passar boa parte da vida pensando
bêbado e desperdício eram a mesma coisa
aí veio o tempo
e uns copos de caninha depois
cá estou
lembrando de um dos primeiros intelectos musicais da minha infância.
um bêbado.
dos bons.
um roqueiro, de vera.
roque me ensinou
os fundamentos do rock.
ensinou a não se render nunca a músicas da moda.
forró do ruim, axé, pagode e besterol
isso tudo passa.
menos o copo de cachaça
que não tem medida.
e mostrou o principal
(derindau-dau-dau)
quando o gás tiver acabando
bota um rock’n’roll pra rolar
encontra um dinheiro emprestado
pede outro copo
toma coragem
se remexe
troca as energias
e a vida continua
faz tua comida.
foi assim que eu vi roque pela primeira vez na minha cabeça
do mesmo jeito que eu vi
o rock
uma passagem forte
de som e sentidos.
uma lembrança cambaleante.
como é que você ainda consegue ter
brilho próprio depois de uma ressaca?
o camarada
tem que ser
um roque star.

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