sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

quando me calar


quando me calar
não pense que esqueci
não confie nisso.
aliás, não confie em mim.
quando eu me calar
não ache que tô bem
que já encontrei outro alguém
e que não vou lembrar o primeiro sentimento.
quando me calo
aperto nós da garganta até o gargalo
do sapato
dou cãibra até na veia do pescoço.
quando me calo
ainda tenho vozes que ouço 
gritar da boca pra dentro.
que se fôda o que os outros pensam.
quando eu me calar
é pra dizer pra mim mesmo
que não há nada que digam
suficientemente forte
pra tirar o amargor da minha boca.
aqui, nesse ângulo de tempo
nesse curto espaço entre duas estradas
é uma distância tão banal
quanto a que existe entre esse plano humano e o espiritual.
se eu me calar de vez
é porque o grito último chegou por aí
e no meio das minhas vísceras
vou deixar o dito como avisado
e o não dito
como apenas uma questão de não acontecer.
tudo que já falei, repito.
naquilo que calei, morri.
mas não quero flores em cima de mim.

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