quando me calar
não pense que esqueci
não confie nisso.
aliás, não confie em mim.
quando eu me calar
não ache que tô bem
que já encontrei outro alguém
e que não vou lembrar o primeiro sentimento.
quando me calo
aperto nós da garganta até o gargalo
do sapato
dou cãibra até na veia do pescoço.
quando me calo
ainda tenho vozes que ouço
gritar da boca pra dentro.
que se fôda o que os outros pensam.
quando eu me calar
é pra dizer pra mim mesmo
que não há nada que digam
suficientemente forte
pra tirar o amargor da minha boca.
aqui, nesse ângulo de tempo
nesse curto espaço entre duas estradas
é uma distância tão banal
quanto a que existe entre esse plano humano e o espiritual.
se eu me calar de vez
é porque o grito último chegou por aí
e no meio das minhas vísceras
vou deixar o dito como avisado
e o não dito
como apenas uma questão de não acontecer.
tudo que já falei, repito.
naquilo que calei, morri.
mas não quero flores em cima de mim.
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